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Para comemorar minha volta a este espaço depois de um hiato considerável, resolvo postar mais um conto produzido pra aula de Criação Literária. A pró pediu para escolhermos uma música e produzir o conto no ritmo da música. Demorei demais pra escolher a melodia ideal que me fizesse abrir a mente para parir o bendito, mas eis que vejo um trailler do filme "Scent of a Woman", onde Al Pacino, que faz um cego, dança o tango de Carlos Gardel e Alfredo le Pera, Por una cabeza.
Baixei a música instrumental tal qual toca no filme e a ouvi seguidamente por horas até encontrar minha historinha. [Depois de lê-la, imagino que a música inspiradora poderia vir do Iron Maiden fácil.]
O título fica como homenagem ao filme e à música, porém o textinho é livre.
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Perfume
Eu vi seu corpo bailando entre a terra e o céu. Ela corria. Corria. Não parecia desespero. Não se diagnosticaria pressa. Saltava. Vestia branco. Havia algumas nódoas oportunistas no seu vestido. Babados. Véus. A meia sofrera com os obstáculos que se impunham em seu caminho. A maquiagem já não era aquela da primeira hora. Era outra. Combinava com o seu estado. Seus cabelos não tinham cor precisa e bailavam com o vento. Deliciosa. Fresca. Corria.
Numa das mãos da fugitiva, notei estranho troféu confeccionado de rosas brancas e laços de fitas.
Ela nunca olhou para trás. Figura sedenta. Passava entre os carros, sobre poças, ignorava o escaldante asfalto mesmo sem já possuir caçados que protegessem seus pés. Afirmar que sentia qualquer dor seria acusação leviana; poderia dizer que atravessava as gentes todas. Multidão sem rostos. Povo intrigueiro que não se furtava em utilizar seus olhos e língua como punhais. Não a atingia.
Ela voava.
Tentávamos adivinhar o segredo daquele espetáculo. Mortais bisonhos.
Boquiaberto a acompanhei até meu pobre limite contado em 180º; até onde a vista deficiente me podia levar.
Quis correr...
A moça flutuava. Perdia-se no além. Deixava para trás a rodovia em espanto. Alheia a tudo. A caminho do mundo.